A TNC é a maior organização de conservação ambiental do mundo. Estamos em mais de 30 países, adotando diferentes estratégias com um objetivo comum: proteger a natureza e preservar a vida.
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Antonio Teixeira Mendes
Seringueiro, sobrinho de Chico Mendes
Por Rane Cortez, para o blog Planet Change (em inglês). Tradução de Peri Dias
“Bem-vindo à única fábrica do mundo que produz camisinhas usando látex natural”, anuncia orgulhosamente uma moça de touca no cabelo, assim que começa nosso passeio. “Nós produzimos 100 milhões de preservativos por ano, mas planejamos dobrar esse número ainda em 2012”, ela explica.
Claramente, os negócios estão indo bem para a Natex, uma fábrica de camisinhas na pequena cidade de Xapuri, no Acre.
Como essa é minha primeira viagem pelo universo da fabricação de camisinhas, estou ansiosa para aprender mais. Começo dando uma olhada no livreto de informações sobre a fábrica, conforme caminhamos em direção a umas centrífugas.
Fui imediatamente soterrada pela longa lista de objetivos, destacados no topo da página. A Natex tem como metas nada menos do que: desenvolver tecnologias que aumentem a competitividade dos produtos da floresta, tornar economicamente viáveis as atividades de extrativismo, melhorar a qualidade de vida dos seringueiros, contribuir para o desenvolvimento econômico de Xapuri, reduzir a necessidade de importação de camisinhas e contribuir para o combate à AIDS.
Parece que na Natex eles não estão apenas fabricando camisinhas e gerando oportunidades de sustento aos moradores. Eles também querem ajudar a salvar as florestas.
Aparentemente, a chave para essa fórmula está em criar um valor para a floresta em pé – extraindo borracha, por exemplo – que seja competitivo em relação a outras oportunidades econômicas que causariam a destruição de floresta. Também é preciso encontrar um leque de atividades que ofereçam um salário decente aos moradores daquela região.
O sucesso da Natex, porém, não se deu da noite para o dia. Estamos em um lugar com um poderoso histórico de conservação, onde ideais profundos e uma forte ética ambiental abriram caminho para oportunidades como esta. Afinal, Xapuri é a terra do lendário seringueiro e líder social Chico Mendes.
Antes de chegar à fábrica, eu havia passado a manhã na fazenda do sobrinho do próprio Chico Mendes, Antonio Teixeira Mendes. Duda, como ele é conhecido, é um dos 700 produtores familiares que fornecem borracha à Natex, número que deve chegar a 1400 com a expansão da empresa.
Na fazenda, conversamos um pouco sobre a história de Chico. A propriedade onde Duda e seus vizinhos plantam hoje já pertenceu a um “patrão”, um latifundiário que pagava salários miseráveis aos seus empregados, mas em troca permitia às famílias cultivar um pequeno trecho. Chico Mendes mudou isso. Ele organizou os seringueiros e conquistou seu direito à terra. Agora, cada família tem seu próprio espaço e a comunidade trabalha em conjunto para garantir que todas estejam bem.
Mas a história não termina aqui. Chico Mendes não incomodou apenas um latifundiário, ele mexeu com todo o sistema econômico local.
Na década de 1970, o Brasil tinha uma política de terras para a Amazônia conhecida como “integrar para não entregar”. Essa política se baseava no medo de que, se o Brasil não ocupasse a região, alguém de fora o faria. O resultado foi o surgimento de grandes subsídios para que fazendeiros e madeireiros se mudassem para a região Norte e derrubassem a floresta. Poucas coisas ficavam no caminho desses recém-chegados, e o que ficasse era violentamente removido.
Nesse equivalente brasileiro ao faroeste norte-americano, Chico Mendes organizou sua comunidade de seringueiros para formar barreiras humanas, conhecidas como “empates”, contra o avanço do desmatamento. Ele também criou a ideia de reservas extrativistas, um novo tipo de área protegida, que permitiria a exploração sustentável dos produtos da floresta. Pode parecer pouco lutar com apenas uma parede humana e uma ideia, mas Chico Mendes conseguiu deter seus adversários. Até a noite em que, pouco antes do jantar, ele foi assassinado em sua própria casa.
Felizmente, os ideais de Chico Mendes não se foram com ele. Hoje, as reservas extrativistas encontram-se na lista do International Union for Conservation of Nature’s (IUCN), que define os tipos de áreas de proteção que podem existir. As florestas de Xapuri, por sua vez, seguem de pé graças aos seringueiros, que conquistaram o direito legal de manejá-las.
Com o peso de toda essa história, Duda nos levou para um passeio por sua propriedade. Ele nos mostrou suas seringueiras e nos contou que, se elas forem bem-cuidadas, serão capazes de produzir ao longo de todo o tempo em que ele estiver vivo – e talvez mesmo depois de sua morte.
Cuidar bem das seringueiras significa recolher a matéria-prima da borracha apenas a cada três dias e nunca abrir as fendas do caule na mesma direção em que estão as fendas antigas. Ele poderia obter muito mais material de cada árvore “sangrando-as” com mais freqüência, mas esse seria um pensamento de curto prazo, ele afirma.
Duda ganha cerca de 550 reais por mês com as seringueiras, durante os seis meses em que pode fazer fendas nas árvores. Com essa renda, você pode estar pensando que a tentação de produzir mais seria grande. Mas Duda nem pensa nisso. Essas árvores não são para ele, são para seus filhos e para os filhos de seus filhos.
Além de borracha, a fazenda de Duda produz castanhas e madeira de manejo sustentável, além de frutas e vegetais. Essa combinação de produtos garante a Duda e sua família uma vida decente.
Algumas pessoas veem a Natex como herdeirado legado de Chico Mendes ou, como diz um dos seringueiros, os promotores do “empate moderno”, em referência à parede humana que Chico Mendes defendia. Até pouco tempo, o preço da borracha sem beneficiamento era baixo demais para fazer da sua extração um meio viável de sobrevivência e muitos seringueiros mudavam-se para as cidades em busca de trabalho. Junto da queda de preço da borracha, o valor da floresta em pé também declinou, o que deu espaço para atividades mais lucrativas – e mais destrutivas – como a pecuária ou as lavouras de biocombustível.
No entanto, quando a Natex abriu suas portas, os seringueiros passaram a ter um comprador garantido, e os preços subiram. Diversas famílias voltaram a viver na floresta e a extrair borracha das seringueiras. Os moradores deixam claro que se sentem orgulhosos da fábrica e do estilo de vida que ela ajuda a sustentar.
Sob essa perspectiva, dá para dizer que eles de fato acredita nos objetivos listados no folheto da Natex: eles sabem que não estão apenas fabricando camisinhas, mas trabalhando por algo maior.
Conforme deixamos a fazenda de Duda, agradeço a ele em nome dos visitantes, vindos de oito países diferentes. Suas palavras finais para nós são: “Por favor, trabalhem para conservar as florestas em seus países. Eu estou fazendo a minha parte por aqui”.
Já dentro do ônibus que nos leva à zona urbana, penso melhor nessas palavras. Talvez o modelo de Xapuri seja único, uma pequena utopia construída sobre um mártir. Este é um local onde o crescimento econômico, o desenvolvimento social e a proteção ambiental convergem de maneira concreta para um mesmo ponto. Eu certamente nunca havia visto um lugar como esse antes. Mas deve haver outros.
Mais importante do que saber se outros lugares assim existem é seguir as palavras de Duda. Nosso papel, agora, é trabalhar para que o modelo se espalhe tanto quanto for possível.
02 de fevereiro de 2012Rane Cortez é consultora em REDD+ pela The Nature Conservancy e vive em Belém (PA).
Peri Dias é editor da TNC em Belém (PA).
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