Destaques

Caindo na estrada

Nossa cientista Rane Cortez relata sua jornada pelas florestas de São Félix do Xingu, sul do Pará.

"Eu, que desde menina quis fazer alguma coisa pra proteger a Amazônia, vou me dando conta de que esse 'alguma coisa' é bem mais complexo– mas também muito mais inspirador – do que eu jamais poderia ter imaginado."

Rane Cortez
Especialista em REDD+

Essa é a primeira parte do relato de viagem de Rane Cortez, nossa especialista em REDD+. Há algumas semanas, Rane e outros cientistas da TNC estiveram em São Félix do Xingu, no sul do estado do Pará, onde a TNC desenvolve um programa piloto para reduzir as emissões de carbono por desmatamento e degradação ambiental. Leia também as outras partes dessa história: Pastagens (e boas perspectivas) à vista e "O cacau é pra nós, e as árvores são...". 

“É aqui!”, grita um dos nossos cientistas florestais, anunciando que ‘geo-localizou’ o primeiro dos muitos pontos que precisamos visitar durante os dez dias de jornada que temos pela frente. Ele está de pé em meio a um emaranhado de cipós, coberto de espinhos e formigas ferozes. Nosso GPS tem um senso de humor peculiar.

Enquanto avançamos em direção ao próximo ponto, penso em como é difícil explicar para as pessoas o que estamos fazendo aqui em São Félix do Xingu, um dos maiores municípios da Amazônia brasileira (e do país!), com 8.4 milhões de hectares – uma área maior que a do Panamá.

Pode parecer complicado se entrarmos em detalhes, mas a ideia por trás do nosso trabalho com carbono florestal é bastante simples:

  • Árvores são feitas de carbono.
  • O corte e a queima de árvores liberam uma quantidade significativa de dióxido de carbono na atmosfera e contribuem para as mudanças climáticas.
  • Se países como o Brasil puderem diminuir a sua taxa de destruição de florestas, eles poderão receber pagamentos de programas internacionais que buscam reduzir ou eliminar essas emissões de carbono.
  • O Brasil pode, então, investir este dinheiro em programas que ajudem a conservar as florestas e criar oportunidades econômicas e trabalho para as populações locais.
  • São Félix vem tentando assumir uma posição de liderança ao demonstrar como um programa desse tipo pode funcionar na prática.
  • Um primeiro passo para conseguir financiar a implementação de um programa de sucesso é medir com precisão quanto carbono pode deixar de ser emitido em São Félix.

E é aí que nós entramos!

O objetivo da nossa viagem é avaliar as condições da cobertura vegetal em São Félix e preparar uma próxima viagem para estimar quanto carbono está armazenado nas árvores do município. Para isso, visitamos diferentes pontos em áreas de floresta. Esses pontos são locais específicos, onde um satélite lança um laser e coleta informações de sensoriamento remoto, identificando o tamanho e a altura das árvores.

Quando vamos àquele local exato e vemos essas mesmas árvores de perto, avaliamos a precisão dos dados fornecidos pelo satélite. Quando voltarmos aqui no ano que vem, mediremos cuidadosamente as dimensões das árvores em 30 desses pontos.

As informações que coletaremos sobre a densidade de carbono vão nos ajudar a determinar quantas toneladas de carbono são emitidas por ano quando as florestas de São Félix dão lugar a pastos ou são degradadas pela extração madeireira ilegal. Essa informação, por sua vez, vai permitir estimar o quanto São Félix pode vir a receber em recursos internacionais pela redução de suas emissões.

Por último, poderemos medir e monitorar quanto carbono São Félix está deixando de emitir por meio das estratégias que o município decida adotar. Isso é parte de um programa internacional chamado redução de emissões por desmatamento e degradação florestal, manutenção e aumento dos estoques de carbono, ou REDD+, pra simplificar. Não é lá um nome muito sexy, eu sei.

Começamos nossa viagem na Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Turismo de São Félix, a SEMATUR, onde nos reunimos com o prefeito, seu Antônio, o secretário municipal de meio ambiente e outros funcionários que nos ajudarão a traçar nossa rota. A TNC trabalha no município há dois anos e já construiu relações sólidas com diversos parceiros locais, essenciais para o sucesso da viagem e da iniciativa.

Depois de discutir possíveis itinerários, decidimos estabelecer nossa base na porção centro-oeste do município, na fazenda do senhor José Wilson, presidente do Sindicato dos Produtores Rurais, que nos oferece abrigo em sua propriedade. Partindo dali, também temos acesso a uma área protegida, onde entraremos com autorização do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), o órgão federal responsável pela gestão de áreas protegidas. Isso nos permitirá examinar florestas em dois tipos diferentes de uso do solo: em uma fazenda de gado e em uma área protegida. Com o plano definido, preparamos nossos suprimentos – redes, mosquiteiros e comida – e caímos na estrada.

A viagem até a fazenda leva cinco horas em estrada de terra. Vamos nos orientando por um mapa feito a mão por alguém na cidade, que nos assegurou conhecer o caminho, e paramos de vez em quando para perguntar se estamos na direção certa. Pela paisagem, pastos sem fim. A cada rebanho que passa, tento imaginar que esse lugar já foi um pedaço de Floresta Amazônica. Eu, que desde menina quis fazer alguma coisa pra proteger a Amazônia, vou me dando conta de que esse “alguma coisa” é bem mais complexo– mas também muito mais inspirador – do que eu jamais poderia ter imaginado.

Leia a próxima parte do relato de viagem da Rane!

31 de agosto de 2011
RSS

Mais recentes

Faça a diferença

Você pode ajudar a TNC a proteger a natureza e preservar a vida, no Brasil e no mundo todo.

Saiba mais

Projeto contribui no combate ao aquecimento global
Paragominas deixa lista do desmatamento
Como Funcionamos
Como Funcionamos

76% Programas de conservação

14% Funções administrativas

10% Arrecadação de fundos e programas de membros