A TNC é a maior organização de conservação ambiental do mundo. Estamos em mais de 35 países, adotando diferentes estratégias com um objetivo comum: proteger a natureza e preservar a vida.
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"Rios são formados por uma grande quantidade de gotas, e cada gota vem da chuva ou de um floco de neve, que desce pelas encostas até chegar a você. A água que você usa tem uma propriedade fundamental – são milhões de gotas! – e pode ter um impacto real."
Dr. Paulo Petry
Especialista em água doce da TNC na América Latina
TNC:
Ouvi dizer que você é um pescador e tanto, e que acha a Amazônia brasileira um dos melhores destinos do mundo para pescar. Fala a verdade: você quer mesmo é proteger seu lugar preferido de pesca, não é?
Petry:
Tenho interesse em tudo que tem a ver com peixes – eu sou um ictiólogo! Eu gosto de estudar e escrever sobre eles, monitorar suas populações e proteger seus ecossistemas, e sim, pescá-los e soltá-los – ou comê-los, de vez em quando. Mesmo gostando de peixes, quero proteger a água doce na América Latina não só por eles ou pelos pescadores, mas por todos nós, para garantir que esses ecossistemas continuem saudáveis e funcionais.
TNC:
Qual é a parte mais difícil do trabalho de um especialista em água doce atuando na América Latina?
Petry:
Na América Latina, assim como em todo o mundo, a disponibilidade de água doce é muito heterogênea. Na América Central e na América do Sul, temos alguns dos lugares mais chuvosos e alguns dos lugares mais secos do planeta. Pense na Floresta Amazônica comparada com certas partes do deserto do Atacama, no Chile, onde só chove uma vez a cada 150 anos.
Mas a disponibilidade de água doce também depende das necessidades locais. Por exemplo, no Peru e no Chile, existe muita demanda por recursos hídricos, já que as populações humanas estão concentradas nas áreas mais secas – no Peru, 70% da população vive onde apenas 1.8% da água do país está disponível. Isso aumenta a pressão sobre esses recursos, dificultando a manutenção da saúde e da diversidade de plantas e animais que dependem dessa água. Além disso, indústrias como a mineração e a agricultura demandam muita água, o que frequentemente provoca escassez para atender as necessidades ambientais. Cada parte de cada país possui necessidades diferentes, e há muitas maneiras de responder a essas demandas.
TNC:
Com represas, desmatamento, mudanças climáticas, aumento do consumo de água, espécies invasoras, agricultura e indústrias ameaçando as nascentes e corpos d'água do México ao Chile, o que você está fazendo para tentar manter saudáveis os ecossistemas de água doce na nossa região?
Petry:
A proposta de conservação da TNC permite trabalharmos em uma base sistemática e em diferentes escalas. Então podemos analisar as várias ameaças a vários ecossistemas, e propor estratégias apropriadas para combatê-las e mitigá-las. Temos que olhar para essa questão de modo sistêmico, numa perspectiva holística, porque ameaças à água doce não têm apenas impactos locais – elas vão se acumulando na medida em que o rio avança.
Se a pecuária e agricultura estão causando erosões que poluem um rio em particular, nós trabalhamos com os fazendeiros e pecuaristas para limitar a erosão: nós e nossos parceiros ajudamos a recuperar a vegetação ao longo dos rios que passem por essas propriedades; além de buscar soluções para manter o gado longe das margens do rio. Se uma grande represa estiver alterando um rio essencial, podemos trabalhar com os gestores da represa e o governo para encontrar soluções que permitam vazões mais naturais sejam realizadas em determinadas épocas do ano.
TNC:
Quantas represas existem na América Latina?
Petry:
Um número exato? É impossível estimar – há represas menores em rios pequenos que nem sequer são registradas pelo governo local, e outras muito grandes como Itaipu, que provê 20% da energia elétrica do Brasil. Mas em toda a América Latina? Existem milhares que já estão operando e pelo menos 2600 em algum estágio de planejamento. E como um dos impactos das mudanças climáticas será a alteração no abastecimento de água, é bem provável que muitas outras represas sejam construídas para compensar.
TNC:
As represas podem ser construídas de uma forma que seja positiva tanto para as pessoas quanto para a vida aquática?
Petry:
Bem, existe uma nova geração de represas e turbinas no mercado, mas ainda há muito trabalho a ser feito para comprovar que elas funcionam como esperado. Nosso maior desafio é fazer que as represas funcionem como se não estivessem lá – administrando de perto quando e quanto de água elas liberam. É preciso encontrar um meio de reproduzir o ritmo natural do rio, o que é quase impossível.
Se você liberar muita água de uma vez só, por exemplo, e na época errada do ano, o rio pode transbordar em um ponto diferente daquele onde transbordaria normalmente. Se você não liberar água suficiente na época certa do ano, flora e fauna sofrem, pois elas estão adaptadas a um padrão natural de alagamento sazonal.
Deve-se pensar num rio levando em conta todo o seu sistema – não se pode considerar apenas um trecho ou uma única represa. Pense numa represa como um coágulo de sangue no seu pé – você não pode tratar o coágulo localmente; você tem que curar todo o seu sistema circulatório.
TNC:
Você participou recentemente da descoberta de uma nova espécie de peixe. Muito emocionante?
Petry:
É importante ressaltar que existem mais de 12 mil espécies de peixes de água doce no mundo. Nos Neotrópicos (América Central e América do Sul), a estimativa é que haja mais de 6 mil espécies e esse número pode ser ainda maior! Ou seja, precisamos proteger nossos ecossistemas de água doce para que novas espécies possam continuar sendo descobertas, e espécies que já conhecemos possam sobreviver. Nós já fizemos muito progresso e, mesmo com todo nosso conhecimento, ainda sabemos muito pouco sobre a complexidade da rede mundial da biodiversidade.
TNC:
É comum vermos campanhas incentivando as pessoas a, por exemplo, não deixar a torneira aberta enquanto escovam os dentes. Que outras coisas uma pessoa comum pode fazer para ajudar?
Petry:
Rios são formados por uma grande quantidade de gotas, e cada gota vem da chuva ou de um floco de neve, que desce pelas encostas até chegar a você. A água que você usa tem uma propriedade fundamental – são milhões de gotas! – e ela pode ter um impacto real. As pessoas não deveriam achar que a água limpa sempre estará disponível.
TNC:
Muita coisa ainda precisa ser feita pra garantir água para toda pessoa, planta e animal. Você se deprime pensando em quanto ainda falta pra chegarmos lá?
Petry:
Todo mundo que conheço está trabalhando muito pra isso. Eu estou trabalhando muito pra isso. Podemos tomar decisões melhores sobre como usar nossa água, e isso fará diferença. Tem que fazer. Quando tenho um dia de folga, quero ir pescar. Não há nada mais frustrante que tentar pescar em um rio morto.
O que mais me preocupa é que a maior parte do mundo ainda tem que perceber quanta água vem sendo desperdiçada e contaminada pelo uso indiscriminado de práticas desenvolvidas cinquenta anos atrás. É hora de uma mudança de paradigma, e novas percepções e práticas que possam nos ajudar a manter a água em curso diante de tantos novos desafios.
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