Destaques

A resposta da natureza ao motor da cidadania

A terra do descobrimento tem sua paisagem transformada pela comunidade.

Por Cadija Tissiani

Estamos no extremo sul da Bahia. Seguindo por umas das inúmeras e estreitíssimas estradas de chão que cortam os municípios de Porto Seguro, Itabela e seus distritos. O local escolhido pelo setor de papel e celulose como um de seus principais pólos de produção abriga um dos remanescentes florestais mais importantes do Corredor Central da Mata Atlântica – faixa compreendida entre o estado do Espírito Santo e o recôncavo baiano, definida como área de alto valor para a conservação em função do grau de endemismo e diversidade de espécies.

Em meio às manifestações da biodiversidade, revelam-se iniciativas para conectar os pedaços isolados de um dos biomas mais ameaçados do planeta e fortalecer a proteção do que restou em pé após a intensa supressão de vegetação nativa observada nos últimos 60 anos, resultado da abertura de rodovias, da implementação do pólo madeireiro de Itabela, e dos grandes incêndios florestais para implantação de pastagens e culturas de café e mamão. As ações fazem parte de uma força-tarefa de organizações ambientais, associações comunitárias, proprietários rurais e setor privado para reduzir o desmatamento e ampliar áreas de florestas nativas a partir da formação de um corredor ecológico de, aproximadamente, 40 quilômetros, que abrange os Parques Nacionais Monte Pascoal e Pau Brasil e está inserido nas bacias dos rios Caraíva e dos Frades.

Desde 2008, essa “rede” de parceiros, composta pela The Nature Conservancy (TNC), Instituto Bioatlântica (IBio), Conservação Internacional (CI), Grupo Naturezabela, Associação dos Nativos de Caraíva (ANAC), Associação Comunitária Beneficente de Nova Caraíva (ASCBENC), Instituto Cidade e a Cooperativa de Reflorestadores da Mata Atlântica (Cooplantar), reúne esforços para convencer os donos dessas terras a preservar e recuperar suas Áreas de Preservação Permanente (APPs) e Reserva Legal (RL) por meio de projetos que conciliem restauração florestal com a geração de renda para a população local, contribuindo para a regularização ambiental dos imóveis rurais.

Como forma de viabilizar a conservação, foi adotada a estratégia de Pagamentos por Serviços Ambientais (PSA) – Carbono. A meta, segundo a bióloga Chris Holvorcem, coordenadora do Programa Corredor Central da Mata Atlântica do IBio, é proteger 20 mil hectares de floresta e restaurar outros 4 mil, dos quais, pelo menos, 1 mil serão reflorestados pela geração de créditos de carbono. Dessa forma, a iniciativa também contribuirá para a mitigação das alterações climáticas. Com a implantação do componente carbono, espera-se absorver cerca de 360 mil toneladas de dióxido de carbono (tCO2), ao longo de 30 anos.

O desenvolvimento do mercado de carbono criado em função das mudanças climáticas aparece como uma oportunidade de alavancar o processo de recuperação em grande escala e, dessa forma, recuperar a integridade dos ecossistemas naturais para que eles continuem fornecendo os serviços ecossistêmicos dos quais as pessoas dependem. Além disso, essa iniciativa pode gerar uma possibilidade real de mitigar e reduzir as ameaças relacionadas os impactos das mudanças climáticas”, explica Gilberto Tiepolo, coordenador da estratégia de Carbono Florestal da TNC.

Rubens Benini, especialista em Restauração Ecológica da organização, aponta mais duas justificativas para a escolha: a existência de várias empresas de grande porte interessadas em compensar suas emissões, e a boa disponibilidade de áreas elegíveis para projetos de carbono na região do Corredor Ecológico. Pelo padrão VCS (Verified Carbon Standard), principal referência do mercado, somente áreas que se encontravam desmatadas há dez anos e que ainda estão nessa situação são consideradas aptas para implementação de projetos dessa natureza.

“Paralelamente a todo o processo de consolidação do projeto Corredor Ecológico Monte Pascoal-Pau Brasil, a TNC foi procurada pela gigante do ramo alimentício, a Kraft Foods, interessada em neutralizar as emissões envolvidas numa corrida de barcos que sairia do continente africano rumo a Salvador, na Bahia. Após uma série de estudos e da elaboração de um diagnóstico da área, chegou-se à conclusão que o PSA carbono poderia viabilizar o projeto do extremo sul da Bahia”, revela Benini

“Eu adéquo a minha propriedade e em troca ajudo a preservar o meio ambiente”

Aos proprietários rurais e empresas detentoras das áreas elegíveis tem sido proposta a assinatura de termos de compromisso de restauração florestal para compensação de emissões de carbono por um prazo de 30 anos. Como contrapartida, eles devem reverter áreas de pastagem, geralmente subutilizadas ou de baixo rendimento, para realização de plantios com espécies nativas, e proteger as áreas restauradas de incêndios, entrada de gado, e outros fatores de degradação. A restauração florestal e a regularização da propriedade são custeadas pelo projeto.

Com o interesse da Kraft Foods em obter os créditos de Carbono, foi possível dar largada, em 2009, à restauração dos primeiros 17,4 hectares de uma antiga área de pastagem, na fazenda Monte Pascoal, município de Itabela. Três anos após o plantio, o fazendeiro Olival José Covre, que precisou se desfazer do gado para a instalação do projeto em suas áreas de APP, diz-se orgulhoso ao ver sua mata em franca recuperação dividindo o espaço com as plantações de café e eucalipto.

A experiência com os primeiros 17 hectares rendeu ao projeto Corredor Ecológico Monte Pascoal – Pau Brasil o selo Clima, Comunidade e Biodiversidade (CCB), consagrando-o como a primeira iniciativa brasileira de restauração florestal a receber a certificação. Considerado a mais importante validação internacional para projetos de geração de múltiplos benefícios, o selo atesta que a ação é capaz de, ao mesmo tempo, minimizar os efeitos das mudanças climáticas, dar suporte ao desenvolvimento sustentável e conservar a biodiversidade em sua área de atuação.

O biólogo Alessandro Moraes, Técnico Ambiental do IBio, responsável pelo acompanhamento das ações em campo, também se impressiona. “Acho que ela (a mata) superou as nossas expectativas de resultados. Acredito que daqui para frente é só ir acompanhando para ver se em 30 anos a gente consegue alcançar a nossa meta”, anima-se.

10 de janeiro de 2012

Cadija Tissiani é jornalista da TNC em Brasília (DF).

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